Total de visualizações de página

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Recomeço

Aquele dia era um dia comum, como qualquer outro dos muitos que já haviam passado e que provavelmente seriam iguais aos muitos que ainda viriam. Casinha de madeira com telhado à base de folhas de bananeira e uma porta puxada por uma velha tábua que já sem uso se encontrara no terreno posterior. Como de costume, ela se levantou quando o sol ainda se fazia bem tímido por detrás dos alpes do cerrado, ferveu a água e colocou um pouco do pó de café colhido às margens dos alpes. Se preparava para apreciá-lo com uma fatia do bolo de milho que havia feito no dia anterior.
   Naquele dia, o cheiro do café, a textura e o gosto do bolo, e a brisa gelada que batia em seu rosto e resfriavam seu nariz, eram como de costume, agradáveis, porém nada esporáticos. Ela terminou seu café, apanhou os recipientes de leite que haviam em cima da mesa acompanhados pelas barras de doce de banana e pôs tudo no veículo, foi até a beira do riacho e lavou o rosto num ato de muito prazer. Logo, trajou-se na melhor vestimenta que possuia, calçou os sapatinhos deixados por sua mãe, simples, porém bem vistosos, montou em seu pedaço de charrete puxada por seu burro de aparência nada agradável e se dirigiu até um vilarejo próximo de nome estranho que nem a mesma tinha sucesso na pronúncia. Tudo estava caminhando dentro dos conformes. Ao chegar no vilarejo, foi direto à frente de um pequeno estábulo, estacionou sua charrete e se pôs a expor seus produtos que, diga-se de passagem, eram muito apreciados pelo povo local. As horas foram se passando e nada de vender nem uma barra de doce se quer. Resolveu sair pelas
ruas anunciando seus produtos. Ao passar por um beco de cheiro nada agradável e com escassas fontes de luz, um velho senhor, trajado em farrapos, que estava ali sentado a mercê da podridão do lugar se pronunciou e com educação lhe pediu um copo de leite e um pedaço do doce que carregava. Ela estranhou tanta educação em um homem daquele tipo, mas ignorou o pedido do velho e continuou seu caminho para tentar vender suas mercadorias. Bateu de porta em porta, gritou, e nada. O sol já ia se escondendo por detrás dos alpes novamente quando ela decidiu voltar para o seu humilde casebre. Não havia entendido o que acontecera pois sempre voltava para casa sem nenhum produto nas mãos. O dia que no princípio se fazia tão comum, fez-se diferente dos outros em seu desfecho. Enquanto seu burro puxava a charrete de volta para
casa, ela, desapontada, olhou para o céu e perguntou à Deus o que acontecera pois estava voltando para casa sem nenhuma moeda. Pediu um sinal de sua existência pois ela se sacrificara tanto trabalhando em seu cantinho para nada. O leite iria azedar e os doces provavelmente não iriam ter a mesma qualidade no dia seguinte. Não obteve resposta. Quando estava prestes a deixar o território do vilarejo, viu que o velho que ela ignorara mais cedo, sorria fazendo sinal para que ela parasse. Ela parou. O velho então retirou um punhado de moedas de ouro de seu bolso e pediu que a mulher o desce todos os seus produtos. Ela se assustou e perguntou ao velho senhor porque mais cedo quando se encontraram ele a pediu um copo de leite e um pedaço de doce sendo que ele possuia dinheiro para comprar tudo que ela tinha. O velho deu um sorriso e respondeu: Olha moça, eu lhe pedi um copo de leite e um pedaço de doce mas não queria de graça, a senhorita me julgou mal pelo ambiente que eu estava e pelas minhas roupas, mas agora que você pediu uma prova de minha existência e reclamou tanto de seu sacrifício trabalhando no seu cantinho, resolvi lhe dar uma segunda chance para recomeçar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário